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2009-2010 | Registro videográfico das horas navegáveis da travessia interoceânica do Canal do Panamá, em sentido Atlântico-Pacífico, realizada entre as 16h de 29.7.2009 e as 13h do dia seguinte, e pintura sobre parede, 10h45’

Contida em um espaço delimitado, uma projeção exibe o registro, em tempo real, de uma travessia transoceânica pelo canal do Panamá. Vista do próprio mastro, a embarcação surge cercada por água, mas descontextualizada. Poucos elementos orientam a leitura do trabalho, que articula o cenário natural e a ação humana, presente tanto na própria expedição quanto na dinâmica das eclusas, que controla o fluxo de naves e permite vencer artificialmente a topografia local.

carla zaccagnini
argentina/brasil sp, 1973
PRÊMiO DE RESiDÊNCiA ARTíSTiCA PARTAGE
FLiC-EN-FLAC, iLHAS MAURíCiO

Artista plástica, crítica e curadora. Mestre em poéticas visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2004), mostrou obras na coletiva Modelos para Armar: Pensar Latinoamérica desde la colección MUSAC (León, Espanha, 2010) e na 28ª Bienal de São Paulo (2008). Suas exposições individuais recentes incluem Imposible pero necesario (Galeria Joan Prats, Barcelona, Espanha, 2010) e No, it is opposition (Art Gallery of York University, Toronto, Canadá, 2008). Teve trabalhos incluídos nos compêndios Cream 3 (Phaidon Press, 2003) e 50 International Emerging Artists (Contemporary Magazine, Londres, Inglaterra, 2006).

“Como em vários dos meus trabalhos, não se trata aqui de chegar a uma representação desejada de algo, mas justamente da tensão entre o esforço reiterado e o fracasso iminente, entre o desejo e a frustração, que acompanha qualquer tentativa de representação de um recorte do real.”

“Penso nos mares de Mondrian, guaches em curtas linhas pretas horizontais recobertas de branco. Imagino Mondrian olhando o mar e tentando pintar o movimento da água, traçando e apagando as ondulações da superfície à medida que ela oscila. Penso também em Cézanne, pintando a mesma Santa Vitória. Ao contrário da água do mar, a montanha se transforma lentamente, lentamente demais para os nossos olhos humanos. Ainda assim, Cézanne voltava a pintar a montanha, deixando ver não as mudanças por que passa o objeto, mas aquelas que lhe imprime o sujeito que olha e, principalmente, aquele que mostra o que vê.”

“O tempo real e a câmera onisciente, fixa no alto do mastro e enquadrando todo o veleiro são, por um lado, movimentos em direção a uma tentativa de representação completa, que tudo abarca, do início ao fim da travessia. Mas são, ao mesmo tempo, limitações decisivas na representação. O enquadramento que acompanha o veleiro sem deixar que nada se perca deixa de fora quase toda referência ao contexto. Ao mover-se junto com o veleiro, a câmera perde a possibilidade de registrar o movimento em um lugar, que precisa de uma referência externa e estática para ser percebido.”

“O tempo real é a característica central desse trabalho. O vídeo é um mapa 1:1 do canal do Panamá, não em termos de espaço, que não se vê, mas em termos de tempo. Em certo sentido é como se voltássemos para a época em que desenhar um mapa exigia o deslocamento real sobre a superfície a ser mapeada, seguir o rio, perceber as curvas, contar os passos, os dias de caminhada, e desenhar o lugar a partir da experiência. O vídeo registra o tempo de que é feita a travessia, as horas ao sol, o dia que escurece, a manhã seguinte; os cabos que se amarram e desamarram, a água que sobe e desce nas eclusas; os momentos de ação e de marasmo. Tudo está ali como duração e demora. E o tempo necessário para se assistir ao vídeo é tempo suficiente para atravessar de um oceano a outro.”