EM UM LUGAR QUALQUER – OUTEiRO
2009 | Videoinstalação, seis canais em semicírculo

A formação de visualidades a partir de dispositivos ópticos precários, e a reconstrução da paisagem por meio dessas imagens estão no centro da pesquisa do artista. Aqui, animações de fotogramas produzidos com câmeras pinhole feitas de caixas de fósforo formam visão panorâmica da praia de Outeiro, em Belém do Pará.

DiRCEU MAUÉS
brasil pa-df, 1968
PRÊMiO DE RESiDÊNCiA ARTíSTiCA –
WBK VRiJE ACADEMiE – HAiA, HOLANDA

Graduando em artes plásticas na Universidade de Brasília (UnB), foi repórter fotográfico por mais de uma década. Desde 2003, desenvolve trabalho autoral em fotografia, cinema e vídeo, em torno de uma pesquisa que envolve a construção de câmeras artesanais e o uso de dispositivos precários. Foi contemplado com bolsa de residência na Künstlerhaus Bethanien/Berlim, Alemanha, pelo programa Rumos Itaú Cultural (2009). Tem obras nas coleções Pirelli‑Masp, FNAC, Videobrasil, MEP (Museu do Estado do Pará) e Coleção Joaquim Paiva.

“A câmera fotográfica é apenas uma ferramenta na construção de uma linguagem poética. É possível, com uma câmera pinhole, alcançar resultados bem próximos dos obtidos com câmeras industriais: imagens que tentam se aproximar cada vez mais, e com perfeição, da reprodução do real. Mas penso ser bastante irritante o discurso ideológico que busca a definição absoluta da imagem, e que acompanha o desenvolvimento dos dispositivos tecnológicos ligados à produção de vídeo ou foto.”

“Nesse sentido, uma câmera artesanal não é apenas uma ótima ferramenta; usá-la é uma atitude conceitual, na produção de imagens que se colocam em contraponto a esse discurso. Imagens-ruído, com acasos e imperfeições que são muito bem-vindos na construção de uma atmosfera que não precisa ser perfeita ilusão. Imagens que trabalham com outros paradigmas: o tempo não é mais o recorte instantâneo que busca o congelamento, mas sim um tempo em degelo, em que a imagem perde em concretude e volume, e se esvai, feito poeira ao vento, em transparência e fluidez. Interessa-me esse campo de incertezas que as imagens produzidas por câmeras precárias proporcionam como parte de sua linguagem.”

“A ideia de movimento surge da curiosidade de ver como esse outro universo de imagens funcionaria dentro do conceito do cinema. Que tipo de imagem em movimento eu poderia ter? Pois eu não estaria trabalhando exatamente dentro da lógica cinematográfica de decomposição/recomposição do movimento. Trabalho com imagens fotográficas que não são recortes instantâneos, mas sim dilatações do tempo. É como se invertêssemos a lógica do dispositivo para ver como ele funciona. Há nisso um desejo de explorar o aparelho, tensionar seus limites, questionar a padronização do uso das coisas, subverter uma certa ordem imposta pelos próprios dispositivos.”