VERMELHO
2009 | Vídeo, 6’56”, loop

A obra integra série em que Milton Machado desloca objetos e imagens do contexto de uma fábrica de móveis de aço para o espaço de uma galeria de arte, criando conjuntos de forte presença plástica e ordenando trabalhos como em uma linha de montagem. O vídeo Vermelho é exemplar de uma intervenção que instaura ou evidencia relações entre âmbitos teoricamente estanques, como industrial e artístico, arquitetônico e pictórico, familiar e político.

MiLTON MACHADO, CACÁ ViCALVi
brasil rj, 1947; brasil sp, 1953
MENÇÃO HONROSA

Formado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com doutorado em artes visuais no Goldsmiths College, Milton Machado expõe desde os anos 1970, transitando entre desenho, objeto, escultura, vídeo, fotografia e instalações. Fez individuais recentes no Instituto Tomie Ohtake, São Paulo (2005), e Barbican Centre, Londres (Inglaterra, 2000), e esteve na 7ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre (2009). Carlos Vicalvi é jornalista e documentarista com passagem por emissoras de TV como Bandeirantes, Globo, Cultura e SESCTV. Criou a Documenta, produtora que se dedica à difusão da arte brasileira, com acervo de documentários sobre mais de quatrocentos artistas contemporâneos.

“Se arte não existe como coisa dada, trata-se de procurá-la onde as coisas não são e não estão. Procurar e, no limite, capturá-la. Não é que eu tenha ‘encontrado’ arte em um sítio industrial. Fui lá à procura de utensílios, de objetos funcionais, que levei para a galeria. Não é também o caso que tais indústrias tenham ‘virado’ arte quando instaladas no espaço da galeria, onde se dá a ocorrência de um outro tipo de Produção*. Arte pode estar em algum lugar qualquer de passagem, em trânsito, em pleno deslocamento e com velocidades variadas, daí não ser fácil nem imediata a captura. A captura e a ocorrência são eventuais, a lógica em questão é a do evento, não do acontecimento factual, do étant-donné. Se você parar, ela já terá passado, acontecido.”

“O monocromo vermelho foi um reencontro. A primeira vez em que o encontrei foi em um desenho de Yves Klein, de 1954. Daí que, antes de qualquer crítica a qualquer outra indústria, se trata de uma celebração. O vermelho do vídeo Vermelho e o vermelho do Monochrome rouge sans titre de Klein são sinais de trânsito. Verdes, por sinal. Em ambos os casos, trata-se de pintura imprópria, por serem vermelhos que, ultrapassando limites, deixam passar.”

“Essa placa vermelha é suspeita e espiã. Fake: todo objeto que penetre esse túnel de lavagem, secagem e pintura industrial é necessariamente desprovido de cor, senão a do próprio metal. É justamente esta a função do túnel: conferir aos objetos sua cor destinatária e funcional. Esta placa já-vermelha, não fosse sua apropriação indébita por esse processo esdrúxulo de Produção*, deveria funcionar como a lateral de um móvel, de um armário, arquivo, gaveteiro… Aqui, invadindo e revisitando um lugar pelo qual já passou e ao qual não deveria retornar, funciona como uma espécie de olheiro (espião), um agente fiscal da Produção*. Como se passasse esse lugar em revista, de modo a conferir-lhe alguma extra-ordinária qualidade. Claro que melhor desempenharia tal função se – como no caso dos objetos/sujeitos do vídeo Pintura – fosse, além de incolor, invisível. Afinal, as variadas viagens de um monocromo acabam sendo, invariavelmente, comprometedoras.”*

* Excerto de texto sobre o vídeo Vermelho, da instalação Produção, exposição individual, Galeria Nara Roesler, São Paulo, 2009