AS PÉROLAS, COMO TE ESCREVi
2011 | Videoinstalação, quatro canais
Imigrantes que entraram clandestinamente no país e hoje vivem em São Paulo, provenientes da Bolívia, Peru, Colômbia, Argentina, Congo e Guiné, são convidados a ler trechos da carta Mundus Novus, de Américo Vespúcio. Escrito entre 1503 e 1504, esse relato é tido como o discurso inaugural sobre o Novo Mundo, diante de uma Europa que ainda não o conhece. Do peculiar sotaque e entonação de cada imigrante, nasce uma polifonia que questiona a condição do estrangeiro e discute o significado de viver entre duas fronteiras, assim como as contradições, as relações de poder e a violência cultural que uma língua estranha é capaz de impor.

REGiNA PARRA
brasil sp, 1981
1º Prêmio Ateliê Aberto Videobrasil
Mestranda em artes visuais na Faculdade Santa Marcelina (FASM) e graduada em artes plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Regina Parra já fez exposições individuais em Recife, na Fundação Joaquim Nabuco, e em São Paulo, no Paço das Artes e na Galeria Leme. Também participou de coletivas como This Is Not a Gateway, Hanbury Hall, Londres, Inglaterra, 2010; Paralela, Liceu de Artes e Ofícios, São Paulo, 2010; e 2000 e Oito, SESC Pinheiros, São Paulo, 2008; além de ter sido artista selecionada pela Bolsa Iberê Camargo em 2009.

“Falo desse tema por muitos motivos. O primeiro é que a imigração é realmente um problema sério e urgente. Por mais que o discurso seja de abertura de fronteiras e globalização, há muita intolerância e cada vez mais pessoas refugiadas, emigradas, precisam ser recebidas. Mas acho também que, de alguma maneira, todos nós somos imigrantes, somos estranhos, diferentes, sofremos violência, somos tolhidos. Fui a uma Bienal de Veneza, há uns anos, cujo tema era: ‘Não existem estrangeiros na arte’. Mas acho que deveria ser o contrário: ‘Somos todos estrangeiros, e conseguimos viver juntos apesar das diferenças’. É sempre muito difícil se abrir ao outro.””Meu trabalho se relaciona com a tarefa do tradutor e com a ideia de tradução como um processo de transformação e criação. Realmente penso nesse deslocamento de um texto que vai passando de pessoa para pessoa e absorvendo camadas. Quando proponho um texto de 1500 para o imigrante ler, espero que essa leitura não seja neutra. Estou tentando provocá-los para saber a opinião deles, o que acham do texto e do Brasil. Assim, acredito que a leitura deles também pode ser considerada uma tradução. A leitura pode ressignificar o texto.”

“Gosto muito da ideia de ponte: aquilo que nos separa é também o que nos une. Mesmo conseguindo a cidadania, o imigrante nunca se torna cidadão de verdade. Eles podem falar português fluentemente; só que a língua materna os separa, coloca-os nesse lugar entre aqui e lá. A língua é o território também. Tomo o que o Derrida fala: a língua é a primeira violência. Quando o estrangeiro chega a outro país, ele é obrigado a falar outra língua, mesmo que para pedir socorro. Essa é a primeira violência, é a primeira imposição. O estrangeiro não consegue fazer absolutamente nada sem falar a outra língua.”

Excerto de entrevista concedida à crítica de arte e pesquisadora Galciani Neves durante residência na Casa Tomada, 2011